A filha do professor
Deixa eu esclarecer logo aos mais afoitos que esta crônica não trata de nenhum 'affair' mais picante de minha adolescência na época do colégio. A personagem em questão não é travessa, não tem nada de sexy e já faz tempo que não é uma menina. A filha do professor é uma senhora daquelas que depois de aposentadas e dos filhos criados decidem dedicar sua vida a ajudar o próximo. Vou explicar. Cuidei de minha mãe até seus últimos dias, aos 97 anos, na semana passada, quando ela desistiu de lutar contra a irreversibilidade da morte e entregou-se definitivamente ao mistério do desconhecido que há, ou não há, além desta existência terrena. Fiz o que pude no campo material, procurando não lhe deixar faltar nada durante o período de despedida em que requeria cuidados especiais. Preocupava-me apenas o fato de que ela, uma pessoa religiosa, estava ali, agora, sem nenhum amparo nesse setor. Não sou um católico praticante. Assim como o presidente Lula, na melhor das hipóteses posso me considerar um "caótico", e assim mesmo com a fé do tamanho de uma semente de mostarda, o que, segundo Jesus Cristo, já vale alguma coisa. Mas sem condições de providenciar um amparo espiritual como minha mãe gostaria. Foi aí que entrou a filha do professor. Ela mora na rua de frente. Conhecia-a apenas de vista. Sabia somente que era a filha do professor, um senhor que provavelmente ensinava a história e com quem eu cruzava muito na rua na minha época de moleque. Uma dessas vezes, aliás, deu-me uma lição típica dos professores. Com meus dez ou onze anos de idade, ao cruzar com ele na calçada, forcei a passagem pelo lado de dentro. Ele me parou e chamou minha atenção, explicando que o lado de dentro da calçada devemos deixar aos mais velhos (como ele) e às mulheres. Foi a única vez em que ouvi sua voz. A princípio, fiquei com raiva daquela lição ali, no meio da rua. Mas depois acabei assimilando e até hoje, acreditem, quando cruzo com alguém no passeio, deixo sempre o lado de dentro para as mulheres e os mais velhos - se bem que ultimamente devo admitir que sou eu quem já está merecendo essa cortesia . Com sua filha sequer troquei uma palavra durante a vida inteira. Apenas soube que pela intermediação da cuidadora de minha mãe ela estava frequentando sua casa, fazendo orações e até dando-lhe a hóstia sagrada. E foi ela, também, que providenciou o padre para a extrema unção, ritual que hoje tem o nome mais ameno de unção dos enfermos. Cruzei com a filha do professor no velório e, pela primeira vez na vida, fui dirigir-lhe a palavra para um agradecimento. Mal e mal consegui balbuciar um obrigado, pois a garganta fechou e a voz, embargada pela emoção, não saiu.
Escrito por José Luiz Teixeira às 22h51
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Speedy volta a dar problema em São Paulo
Engripe espanhola O Speedy voltou a dar problemas em São Paulo esta semana, segundo inúmeras reclamações que ouvi de usuários a emissoras de rádio. A imagem dos espanhóis junto aos brasileiros já não está lá essas coisas, depois dos maus tratos a que foram submetidos alguns compatriotas no Aeroporto de Barajas. Com o descaso com que vem tratando seus clientes, a espanhola Telefonica está contribuindo bastante para piorar essa imagem. Antes que me chamem de xenófobo, vou logo esclarecendo que apesar de descendente direto de italianos e portugueses, não tenho nada contra os espanhóis, como povo. Pelo contrário, tempos atrás (um pouco depois do fim do Tratado de Tordesilhas, se não me falha a memória) morei na Espanha por alguns meses e só guardo boas recordações dessa república formada por bascos, catalães e castelhanos, entre outros, que, um dia, podem crer, ainda serão países autônomos. Quem conheceu de perto bascos e catalães sabe do que estou falando. Essa gente não é de se entregar mesmo sob a forte repressão do poder central de Castilha. Mas deixemos os bravos (no bom sentido) de lado, e voltemos aos fracos (no mau sentido, ou seja, de caráter) que estão levando nosso dinheiro embora para seu país, sem deixar aqui uma contrapartida decente - o pessoal da Telefonica. Essa empresa herdou toda a estrutura da nossa Telesp e, ao que parece, passou a vender seus produtos sem investir na mesma proporção em tecnologia. Não tenho dúvidas de que, no fundo, no fundo, esse é o motivo dos apagões do Speedy. O que duvido - e já faz tempo - é se essa história de privatizações foi mesmo séria. Até hoje ninguém conseguiu me responder por que empresa estatal estrangeira pode e brasileira, não. Exemplo norueguês Aqui vai um recado aos coleguinhas jornalistas que adoram repetir o bordão dos empresários de que o brasileiro é vagabundo, que aqui só tem feriado, que folga-se muito etc etc etc. Reproduzo abaixo um trecho de uma reportagem publicada pela Estadão de domingo passado sobre o que o titulista chamou de "a próspera Noruega". Antes, porém, quero só fazer uma ressalva: a Noruega, bem como suas colegas escandinavas Suécia e Dinamarca, deve muito de sua prosperidade à exploração de países do Terceiro Mundo, como faz a Espanha, hoje-em-dia, por intermédio da Telefonica. Mas isso não vem ao caso, no momento. O trecho da matéria que quero reproduzir é uma declaração do economista Knut Mork, do Handelsbanken, ao Estadão: - Um estudo concluiu que nós, os noruegueses, trabalhamos menos horas do que em qualquer outro lugar do mundo. Nos tornamos complacentes. Construímos cada vez mais casas para passar férias. Temos mais feriados do quem em muitos outros países, recebemos benefícios e temos políticas de afastamento por doença extremamente generosos. Fazendo uma analogia com o nosso futebol, como gosta o cara, poderíamos dizer que na Noruega quem corre não é o jogador: é a bola. A morte do telefone Quando surgiu a televisão, disseram que o rádio ia morrer. Não morreu. Quando surgiu a Internet, constou que o livro ia morrer. Tá vivo. Por outro lado, sempre me intrigou o fato dos grandes provedores da rede no mundo serem de companhias telefônicas. Deveria ter uma jogada, ali. Primeiro, a óbvia: enquanto você está conectado, você está usando uma linha telefônica. Ponto para eles. Mas no último domingo, me caiu a ficha completa. Clique aqui para ler a íntegra dessa crônica de Mário Prata, escrita em um dia em que ele ficou sem provedor - coincidentemente o Terra, que pertence à ...Telefonica. PS: "Engripe", neologismo do verbo engripar, quebrar, travar, deixar de funcionar (Aurélio).
Escrito por José Luiz Teixeira às 16h37
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Tsunami antitabagista
A cobra vai fumar
Primeiro eles proibem as pessoas de fumar em lugares públicos e privados, mesmo que sejam ao ar livre. Basta ter um puxadinho para configurar crime. Curiosamente, produzir, fazer propaganda e vender cigarro é absolutamente legal. A maioria da população aprova a proibição, pois não é fumante e não conhece os prazeres nem o vício da nicotina. Em seguida, proibirão a bebida alcoólica nos bares e restaurantes, pois seus efeitos nocivos contra terceiros são igualmente nefastos. Basta ver quantas pessoas são mortas por motoristas embriagados, quantos maridos batem na mulher, quantos bêbados valentes dão tiros e facadas no amigo do bar. Isso tudo, sem contar os bebuns pacíficos, cuja chatice não deixa de fazer mal à saúde. A fabricação, propaganda e venda de bebida alcoólica também é legal. Mas a sociedade igualmente aprovará a proibição, pois a maioria não sabe dos prazeres e do vício do álcool. No futuro, ainda terão coragem de proibir a circulação de motocicletas pela cidade, pois o prejuízo que os motoboys dão aos cofres públicos incomodam bastante os financistas do governo. Produzir, fazer propaganda e vender motos é legal. Ocorre que o uso desse veículo é responsável pela morte diária de pelo menos dois jovens na cidade de São Paulo, além de um número seguramente bem maior de aleijados pela vida inteira. Esta será mais uma proibição tranquilamente apoiada pela maioria do povo que, afinal, odeia motoqueiros, sem conhecer o prazer de pilotar uma moto com o vento batendo no rosto, a adrenalina de "costurar" nas avenidas. Os carros, com certeza, serão as próximas vítimas. Será permitido produzí-los, fazer propaganda, vendê-los, até dar dinheiro público às montadoras. Mas será proibido sair com o automóvel às ruas. O proprietário só poderá usá-lo na sua garagem. A maioria dos cidadãos, aqueles que andam de ônibus, sem dúvida, apoiará a restrição, pois o congestionamento e a poluição produzida pelos veículos particulares já respondem por milhões de mortes, além do aquecimento global. Quem anda de transporte público não sabe do conforto e o prazer de dirigir um carro novo, com ar condicionado, som estéreo, bancos de couro. Talvez não demore muito para que seja proibido servir carne nas churrascarias. Razões para isso existem de sobra. Chegarão à conclusão de que o governo gasta mais no tratamento de pacientes com colesterol alto, problemas cardíacos, câncer de intestino, obesidade mórbida, do que com fumantes. Nesse caso também pode-se evocar as vítimas passivas: os pobres animais sacrificados legalmente a sangue-frio para saciar a gula dos humanos. Por enquanto, apenas uma minoria vegetariana aprovaria a proibição, pois não conhece os prazeres da carne, o saboroso gosto do sangue quente de uma picanha mal passada. As proibições não pararão por aí. A cada ano surgirá uma nova, sempre apoiada pela maioria. Haverá um tempo em que os governantes tomarão tanto gosto pela coisa que acordarão todas as manhãs com uma nova idéia sobre o que reprimir. O governador chamará seu ajudante-de-ordens para ditar a próxima medida, mas faltarão opções. Tudo já estará praticamente proibido. - O lança-perfume? Não, já foi proibido faz tempo. O bingo? Também. O biquini? Esse o Jânio Quadros já proibiu, mas não pegou, é melhor deixar quieto. Nesse caso, burca para as mulheres nem pensar...huummm...já sei! Os blogs. Em Portugal Como vocês poderão ver na crônica abaixo do colega bloguista português António Durães (honestamente, nunca ouvi falar do gajo, achei-o na web), a proibição do tabaco já chegou à Europa e, consequentemente, em Portugal, desde o começo deste ano. O colega lusitano narra com bom humor a novidade, a partir de seu ponto de vista, no blog "Domingo de Manhã". O novo ano trouxe-nos a novidade da proibição de fumar em praticamente todos os estabelecimentos públicos. Uma realidade que vinga por essa Europa fora, mas que se supunha que chegasse mais mansa, mais pé-ante-pé à nossa realidade nacionalzinha, a de um povo que descobriu agora que vai ter de passar a escrever como nas telenovelas brasileiras, uma coisa indescodificável para a maioria das pessoas... Leia mais, clicando aqui.
Escrito por José Luiz Teixeira às 16h21
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Quando as mães se tornam filhas Entre os ritos de passagem que temos de atravessar para nosso crescimento, talvez o mais difícil e doloroso seja aquele em que nós, filhos homens, passamos a cuidar das mães como se fossem filhas. Pode ser preconceito de minha parte, o que não seria de se admirar, mas acho que as mulheres têm mais facilidade para aceitar e cuidar de suas progenitoras quando elas se tornam idosas e, tal qual benjamins buttons, voltam a ser crianças. É provável que por questões edipianas aos homens seja mais difícil cuidar das mães, enquanto as mulheres talvez sofram um pouco mais ao assistir aos pais nos seus derradeiros dias. A verdade é que é difícil aceitar a condição que nos impõe a natureza, a partir de uma certa idade, de passarmos de cuidado a cuidador. O processo às vezes é demorado e, por isso mesmo, mais avassalador. Começa com simples recomendações, do tipo "é melhor tirar esses tapetes do caminho, pois a senhora pode cair e se machucar". Passa por broncas severas tais como "quem mandou sair de noite com esse frio?" Depois de alguns anos, acabamos nos resignando à nova e cada vez mais precária situação e nem ralhamos mais; simplesmente marcamos a consulta, levamos ao médico e, quando podemos, colocamos uma empregada para tomar conta - o que geralmente é motivo de resistência e implicância. Mais tarde, é preciso substituir a empregada por uma cuidadora ou enfermeira permanente, pois o banho e a troca das fraldas precisam ser terceirizados. A partir daí, transformam-se em nossos bebês - com a diferença de que em vez da vida, têm a morte toda pela frente. No fundo, creio que os homens sofrem mais nesses casos pela perspectiva de perder o referencial materno. Desde criança esse sempre foi meu maior temor. Quando minha mãe viajava a trabalho e me deixava alguns dias sozinho com meu pai, rezava todas as noites pedindo a Deus que a conservasse viva por muitos e muitos anos. Chorava ao ouvir no rádio uma música do cantor gaúcho Teixeirinha, que tocava insistentemente, na qual ele narrava o episódio em que ficou órfão, ainda menino, devido a um incêndio na casa em que moravam. Não lembro o nome da canção. Só me recordo que maldosamente a chamavam de "churrasquinho de mãe". Enfrentar o ocaso materno pode ser sintoma de imaturidade, acredito; mas conforta-me saber que estou bem acompanhado nesse "gap" psicológico. Outro dia, ninguém menos do que José Saramago narrava seu sofrimento por não saber lidar com a velhice da mãe. E contava que Fernando Pessoa também descrevera sentimentos semelhantes por sua querida Maria Madalena. Imagino que essa fraqueza seja típica dos latinos, principalmente portugueses e italianos, de quem descende este velho blogueiro. Na minha família, na qual as mulheres são admiravelmente longevas, muitos primos morreram anos antes de suas mães. Sou capaz de apostar que inconscientemente programaram a despedida prematura para se safar desse desagradável rito. Um presente para as mamães O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol.
Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear — e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte. Leia a íntegra dessa crônica de Rubem Braga (um presente às mamães leitoras deste blog), clicando aqui.
Escrito por José Luiz Teixeira às 00h18
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Perfil do Editor
Formado em 1974 pela Faculdade Cásper Líbero, José Luiz Teixeira trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, BBC de Londres e Tupi, e os jornais O Globo, Folha de S. Paulo e Folha da Tarde.
E-mail escutaze@uol.com.br
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